Há dois anos atrás, dias depois do nascimento da minha filha, minha sogra solta a frase que ainda soa na minha cabeça: "Você percebeu que você não é mais a mesma?"
Na mesma hora perguntei: "Mas estou melhor ou pior?"
E a resposta só poderia ser mesmo de sogra: "Há controvérsias."
Depois de doze anos de união, minha sogra já me conhecia o suficiente pra poder responder que há controvérsias. Minha descendência italiana já me fez passar por algumas vergonhas em público, como numa das primeiras vezes em que fui a um restaurante com toda a família do meu marido. Meu cunhado e eu conversávamos sobre uma namoradinha que ele tinha. Num dado momento ele fez uma revelação surpreendente a respeito da relação entre eles. Na hora soltei um sonoro: "NÃO ACREDITO!", que veio acompanhado por um não menos latino tapa na mesa, atitude impensável para um família tão discreta cujos antepassados remontam aos suíços Boechats. O que se seguiu me envergonha até hoje. A mesa, grande e redonda, arrumada à francesa, estava repleta de garfos, garfinhos, facas, faquinhas, taças para água e vinho. Com meu delicado tapa, todos os objetos que estavam sobre a mesa alçaram voo e voltaram novamente, como um nadador de saltos ornamentais se preparando no trampolim. O estrondo chamou a atenção de todas as mesas ao redor. Pra tentar amenizar meu furor, meu marido, que na época era simplesmente meu namorado, segurou com força minha mão sob a dele, o que fez parecer que quem havia batido na mesa tivesse sido ele. Tive mesmo que assumir meu erro quando minha sogra olha com cara de repreensão para o meu então namorado e diz: - Meu filho, o que é isso? Você nunca fez uma coisa dessas..."
Eu não tinha percebido, mas realmente eu não era mais a mesma. Depois que perdi um bebê, fiquei três anos tentando engravidar em vão, até descobrir que o meu problema hormonal não era tão grave assim. Durante esses três anos eu vivi uma tristeza sem igual. Parecia que faltava um pedaço de mim.
E agora aquela parte que tinham me tirado estava ali, toda minha, vivíamos uma perfeita co-dependência. Ela precisava de mim pra sobreviver e eu não podia mais viver sem ela.
E agora, dois anos depois, ainda continuo pensando: será que não sou mesmo mais a mesma?
Crianças aprendem por imitação. Por isso filhos adotivos se parecem tanto com os pais. Por isso um lar violento tende a gerar crianças violentas.
Com um histórico de obesidade desde a infância, há 7 meses resolvi fazer uma gastroplastia que já exterminou 35 dos meus 124 quilos, Queria que minha filha tivesse a oportunidade de não desenvolver a obesidade por imitação a uma mãe compulsiva por comida.
Eu me policio para não roer mais as unhas pois aos dois anos de idade minha filha já coloca a mão na boca imitando o gesto que ela tanto vê a mãe fazer.
Minha filha percebe quando pinto as unhas, quando coloco uma flor no cabelo, quando mudo de óculos, de roupa, de bolsa, de carro.
Me faz fazer exercícios pedindo pra que a levemos pra andar de bicicleta "mamãe e papai". Pede pra ir ao teatro, pra ir ao cinema. Pede para eu fechar o computador e dar atenção a ela, para que eu não me esqueça que todo dia é dia de brincar.
Me faz levar a vida mais a sério quando tenho que levá-la ao hospital fazer uma inalação de madrugada ou ao pediatra tomar vacina, quando lembro que a partir do ano que vem ela já vai pra escola e terei que ganhar mais dinheiro pra poder assumir mais essa dívida.
Me faz ver a vida mais colorida quando me obriga a entrar na piscina de bolinhas ou a pular na cama elástica.
Mas sobretudo me obriga a me orgulhar de ser quem eu sou e me faz lembrar o tempo todo que agora sou obrigada a ser feliz, assim, quem sabe, por imitação, ela realize o meu maior desejo de que ela seja uma pessoa muito muito feliz!
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Lindo, emocionante.... até sinto que estive naquela mesa que pulou com o discreto comentário!
ResponderExcluirAmo você e de como você vê a vida!
Amo a Ornella e a idéia de que algúm día a gente possa ver como nossos filhos brincam juntos.
Amo ser diferente e que isso seja por causa de quase um metro de pureza. (no meu caso, duas vezes "quase um metro")
Amo este blog!
marie.
Querida Gi,
ResponderExcluirTentei postar 2 vezes um comentário aqui, algo deu errado e agora vou para a terceira, pois esse relato emocionante precisa ser não só comentado, mas como comemorado.
Os filhos são a verdadeira razão da nossa vida, mesmo quando não vivemo só por eles.
E essa influência que temos sobre eles não se restringe aos filhos, pois na adolescência cada uma de vocês me influenciou muito.
De você moldei meu gosto musical, que já não é o mesmo aquela época em que queríamos casar com o Caetano Veloso, ou passar horas com o Chico, nos aventurar com o Cajú- como você chamava o Cazuza.
Também hábito da leitura, o interesse pelas artes, teatro e cinema, numa escala bem menor que a sua obviamente.
Mas não só você influencia a Ornella como ela também, pois por ela você se permite a ser criança numa piscina de bolinha e a praticar o amor incondicional que sentimos por elas.
E assim muda todos os dias através das experiêcias que a vida te proporciona, para muito melhor!!!