Nestas últimas férias passamos uma semana na Ilhabela, mesmo indo para lá desde que nasci, ainda sou apaixonada por aquele lugar.
Acho que estar rodeada por água de todos os lados é o que me fascina em qualquer ilha, principalmente as pequenas.
Os recortes da encosta formando as praias, a cor da água, a vista fabulosa, a vegetação mais densa e preservada. Sei lá... Me parece algo mágico, místico, sobrenatural, divino!!!
E mesmo indo para a Ilhabela desde pequena ainda não conheço vários lugares de lá. Acabamos ficando sempre na casa da minha mãe, que é tipo hotel 5 estrelas, com serviço de quarto, baby siter, a comida com o tempero da minha infância e com direito a colo de mãe... E quase sempre vamos às praias de acesso mais fácil.
Se bem que faz um bom tempo que temos explorado a Ilha de bike, que é pura adrenalina. A velocidade nas descidas, o vento no rosto, o visual paradisíaco e a as subidas que fazem o meu coração chegar a 180 batimentos por minuto me matam de prazer. É uma das melhores sensações que o esporte pode proporcionar, não sei se são os hormônios que a gente libera, mas só consigo sentir uma gratidão imensa pela perfeição do meu corpo, pela natureza e pelo privilégio de poder curtir tudo isso.
Mas desta vez deixamos a bike e finalmente fomos caminhando para o Bonete, que só tem acesso de barco ou à pé. Finalmente porque fazia muito tempo que estávamos planejando passar uma noite lá, namorando um pouco longe de toda a civilização... Sem celular, luz elétrica, ar condicionado e na companhia apenas de muitos borrachudos.
Depois de chegar no extremo sul da Ilha deixamos o carro num restaurante chamado Nova Iorqu"i",onde acaba o asfalto e partimos para a trilha de mais ou menos 15 quilómetros.
Subidas, decidas, barro, escorregões, pedra, mato, borboletas azuis, pássaros, bromélias e lindas
cachoeiras.
A primeira cachoeira é a da Laje, simplesmente tão linda quanto gelada. Algumas piscinas naturais para um mergulho e também caídas para uma revigorante hidromassagem depois de umas 2 horas de caminhada.
A força da água é impressionante, acho que é o contato mais íntimo e puro que se pode ter da natureza, te limpa por dentro e por fora. Um banho de cachoeira por mês deve ser um excelente remédio para o estresse, circulação, reposição de energia, e olho gordo. É o famoso banho "tira nhaca".

Depois mais 1 hora e pouco de lama, subidas, descidas, cipós e novos escorregões mais uma cachoeira, a do Areado.
Para chegar no Bonete é preciso passar pelas duas, mas na do Aereado é necessário entrar na água para atravessar, já a da Laje da para passar pelas pedras.
Não aconteceu conosco, mas se chover e você tiver no percurso entre as cachoeiras fica preso por lá. E foi justamente nesta hora bateu uma baita fome e depois de conferir as mochilas 3 vezes percebemos que esquecemos os sanduiches em casa. Tivemos que dividir uma banana, e para não perder o ritmo, comemos andando mesmo.

Depois de mais 1 hora andando dentro da Mata Atlântica abre-se uma clareira e de repente avistamos a praia de lá do alto. A vista é simplesmente maravilhosa, nenhuma foto pode representar a beleza da Enseada das Anchovas, e depois de toda a caminhada a gente entende que esse é o verdadeiro prêmio.
Na realidade nós já conhecíamos a praia porque fomos de barco algumas vezes, mas nada se compara ao ver de cima... O ponto de vista faz toda a diferença, pois da areia não da para ter noção da amplitude do lugar e as nuances do azul do mar.

Mas para chegar na praia ainda faltava uma descida bem íngreme e só depois de passar por mais mais uma cachoeira é que finalmente se pode receber as boas vindas do Bonete.
Em exatas 4 horas e 18 minutos chegamos na pousada onde nos hospedamos naquela noite. Antes de tudo tomamos um banho para depois poder relaxar sob os incontáveis chapéus de sol que sombreiam a praia, fazendo uma divisão natural com as poucas construções e com a vila de pescadores, margeadas pelo rio onde canoas coloridas se misturam ao cenário e são a fonte de sustento das poucas famílias que moram lá.
Os filhos de pescadores e alguns surfistas passam o dia todo no mar, que é uma das melhores praias de surf da Ilhabela.
A água gelada e límpida, a areia branca e macia. Nadar e observar os surfistas, nada mais para fazer...

Nós somos tão agitados que não conseguiríamos passar mais do que 1 ou 2 dias lá, mas acho que seria um ótimo exercício para desacelerar a cabeça e praticar o desapego, pois na mochila só tinha 2 roupinhas básicas, 1 escova de dente e pasta.
Shampoo é acessório de luxo, não levei para não pesar. Em compensação não abri mão de 2 potes de repelente, extremamente úteis.
A pousada Canto Bravo foi onde ficamos, rústica e aconchegante.
O quarto sem requinte, com exatamente tudo o que precisavámos. Uma cama limpa e macia com dossel, a moringa de água fresca, uma rede colorida na varanda de madeira com vista para o mar, um banheiro com chuveiro a gás, e a companhia do homem da minha vida.
Passamos bons momento ali, o calor daquele dia de verão se misturando e se confundindo com o nosso próprio calor.

Escureceu só às 20:00h, o céu ficou avermelhado e de repente o breu. Não há luz elétrica, só um gerador que abastece as 2 pousadas e algumas casinhas. Tem um aviso pedindo para desligarem a geladeira à noite para economizar a energia do gerador.
Jantamos na outra pousada, chamada Porto Bonete, servidos por 2 estágiários de turismo, um Espanhol e uma Uruguaia super simpáticos, não sei se era a fome depois daquela caminhada de 4 horas, ou porque era a primeira refeição real do dia, mas comemos um peixe delicioso acompanhado por um purê de mandioquinha e a melhor couve de toda a minha vida. E para não aderir totalmente ao gênero natureba, tomamos 2 caipirinhas cada um.
Fomos para a nossa pousada nos guiando pela suave luz de uma lanterninha e descansamos protegidos por um bucólico dossel, a luz de velas adormecemos com o som das ondas ritmadas quebrando na areia.
No dia seguinte a pousada serviu um café da manhã do jeito que adoro, café no bule de ferro aquecido no forno a lenha, mamão papaia, coalhada com granola, pão integral e queijo branco com mel e açucar mascavo. Agora sim o natureba caiu bem...
Andamos pela praia, conhecemos todo o vilarejo, a escolinha, o camping , e no final da praia, onde o rio encontra o mar, grandes pedras compõe a paisagem junto com as canoas coloridas, duplicadas e pelo reflexo nas águas rasas e calmas do rio.


Seguindo pelo rio está a cachoeira do Poço, onde um grande poço gelado é a piscina mais deliciosa que já nadei. Ficaria boiando ali por horas observando alguns pássaros e borboletas que voavam em volta e onde o único barulho era o som do Pica-Pau.

Comecei a sentir pena de ir embora, combinamos com o canoeiro a nossa volta pelo mar ao meio dia, então mergulhamos no mar mais uma vez e nos despedimos do Bonete.
Lá é um lugar para aprender a ter calma, a estar em paz, a ouvir o silêncio interior. Acredito que seja o lugar ideal para ficar ilhado por uns dias mesmo, sozinho ou bem acompanhada como eu e receber estes presentes do mar.
