A mesma revista que me inspirou a idéia deste blog tem também uma outra matéria que vale a pena ler.
A revista é a Vida Simples, da editora Abril, no site
www.revistavidasimples.com.br da para ler as matérias na íntegra.
Resolvi postar esta especialmente porque fala de depressão, já que no nosso último happy hour este foi um assunto que me deixou preocupada.
Já vi pessoas muito próximas passando por isso, presenciei as crises psicóticas, o tratamento e, felizmente, a cura.
Sorte eu não ter passado por uma depressão, mas acho que esta é a doença do novo século e acomente grande parte da população.
Pessoas que não conhecem podem achar que é fraqueza, frescura ou qualquer coisa que o valha, mas quem passa pelo problema se sente excluído e não enxerga a solução.
Mas uma coisa é certa: Tem solução sim.
A vida é muito boa para ser desperdiçada e a felicidade está em muitos lugares onde não se pode ver, mas o importante é que se pode sentir!
Vôo cego
O que é a depressão, quais são suas características e como lidar com a pessoa deprimida
texto Rodrigo Levino fotos Manuel Nogueira
Deixar as crianças na escola, trabalhar, cumprir prazos, horários, metas, lembrar a senha do banco, o vencimento das contas, atualizar o Facebook, checar e responder e-mails de trabalho e pessoais, ligar para os amigos, brincar com os filhos, ir ao cinema, enfrentar horas de engarrafamento, segurar o medo da insegurança, alimentar-se, dormir, acordar. E, por fim, estar pronto para um novo dia onde mais tarefas serão somadas à lista. Sim, nós podemos.
Mas e quando não conseguimos mais? E quando deixamos de acreditar que somos capazes de ao menos levantar da cama e cumprir o menor dos afazeres? Para além da contumaz preguiça de segunda-feira ou da impaciência que nos faz perder o ânimo de encarar o chefe, o trânsito ou o amigo carente que cobra atenção, é possível que a depressão tenha chegado e, com ela, a sensação de impotência descrita com simplicidade em janeiro de 2008, no diário da jornalista americana Daphne Merkin, 55: “Jamais conheci uma pessoa depressiva que quisesse sair da cama pela manhã – que não vivesse o raiar do dia como uma convocação para se enterrar ainda mais embaixo das cobertas”.
"A pessoa deprimida não consegue enxergar todas as coisas boas que a vida ainda pode lhe reservar"
Daphne sabe do que fala. Ensaísta, romancista, crítica literária e de cinema consagrada em publicações como a revista New Yorker e o jornal The New York Times, ela convive há 40 anos com a depressão. Alternando calmaria e recaída, vivacidade e fracasso, a jornalista confessa desejar que tudo fosse mais simples, “como engessar a mente até ela sarar, assim como se engessa um tornozelo quebrado”. Expectativa similar – e às vezes frustrada – à de Manuela, Laura, Pedro, Tatiana (identificados, a pedido, apenas pelo primeiro nome) e Luiz Caversan.
Os cinco personagens ouvidos por VIDA SIMPLES enfrentam ou enfrentaram a dificuldade de não ceder ao “enterrar-se ainda mais embaixo das cobertas”, e ajudaram a montar um pequeno mosaico da doença que, de acordo a Organização Mundial de Saúde, atinge anualmente 4% da população feminina e 2% da população masculina ao redor do mundo.
No total, estima-se que 20% da população mundial sofra ou tenha sofrido de depressão em alguma época da vida. Associada a outras doenças, é o mal que até o ano 2020 ocupará o segundo lugar das causas de morte, atrás apenas dos males coronários.
Não conseguir encaixar-se no check-list da modernidade é um poderoso gatilho para o início da depressão, mas, ao contrário do que se imagina, está longe de ser o principal motivo para a manifestação da doença. Afinal, há pelo menos 2 mil anos, quando não havia chefes ou engarrafamentos, os gregos diagnosticaram e conjeturaram a respeito do problema.A crise Voltar ao trabalho após o nascimento do segundo filho transformou- se numa tarefa hercúlea para a recifense Laura, 34, advogada. A vocação exercida com prazer desde os 22 anos virou, do dia para a noite, “a pior coisa que podiam me obrigar a fazer”, afirma. A segunda maternidade aos 29 anos diferiu em tudo da chegada do filho mais velho.
Aos poucos, o desânimo estendeu- se à casa, à família e aos amigos. A vaidade e a libido deram lugar à fadiga e à sonolência, que praticamente a incapacitaram de viver o primeiro ano da criança. O casamento esteve à beira do fim em pelo menos três ocasiões. Alternando recaídas e melhoras, o problema correu sem nome por mais dois anos e meio, até que em julho de 2008 veio o diagnóstico, quando ela se dispôs a procurar um terapeuta: depressão pós-parto.
Para a carioca Manuela, 24, produtora de moda, o estopim foi a separação dos pais. Abatida, decidiu recomeçar a vida há quatro anos em São Paulo, acreditando estar a uma distância segura dos problemas familiares. A solução revelou-se um desastre. Sozinha, sem amigos e sem apoio familiar, Manuela sucumbiu à hostilidade da metrópole, aos engarrafamentos, ao ritmo acelerado do novo trabalho e, pior, à bebida. Em dois meses foi a nocaute. “Fui salva pelo meu pai, que veio me visitar e viu que eu mal comia, bebia muito e faltava ao trabalho, que por pouco não perdi”, diz com expressão de alívio.
“Estou há um ano sem crise, mas Desde Hipócrates o problema vem sendo analisado e ainda hoje é uma questão central nunca se sabe...”, diz Manuela. Aliando terapia, antidepressivos, esporte e alimentação saudável, ela diz sentir-se mais forte, embora o medo de novas crises esteja à espreita. Antes do atual período de calmaria, o maior problema foi a falsa sensação de cura. Nos dois primeiros meses em que se viu aparentemente recuperada do problema, voltou a beber. A mistura de álcool com remédios a fez reviver o inferno de antes. “Achei que iria de novo para o fundo do poço, mas consegui sair.”
Apesar da quantidade de casos relatados a partir de perdas e/ou traumas, não é sempre que se dá um estopim. Foi o que faltou, por exemplo, ao caso do jornalista Luiz Caversan, 52. “Os primeiros sintomas da depressão vieram em 1998. Eu morava numa cidade linda [o Rio de Janeiro], tinha um ótimo emprego, vida social intensa e satisfatória.” Nada impediu, no entanto, que a doença viesse à tona, junto com a falta de apetite, o excesso de sono e a tristeza crescente.
“Enfrentei fases muito agudas por longos oito anos, até 2006. Nos últimos três anos a vida melhorou muito”, afirma Caversan, que de vez em quando lida com a melancolia, mas nada que se compare às crises passadas. Quando indagado sobre que conselhos daria a alguém que acabou de descobrir o problema, ele se diz inapto para regras, mas, se for o caso, que se busque um meio-termo. “Nem a vergonha de ter a doença, muito menos viver em função dela.”O problema De Hipócrates a Sigmund Freud, o conceito de depressão foi ampliado e até hoje é perenemente ajustado às novas descobertas e casos. Para o grego, de cuja língua se origina o termo melancolia (ao pé da letra, “bile negra”), a ação de Saturno sobre o corpo humano fomentava a produção de uma secreção do baço, capaz de alterar o humor do indivíduo, levando-o ao isolamento e à fadiga.
Freud, no ensaio Luto e Melancolia, afirma que a depressão (à época ainda simplesmente “melancolia”) tem, afora a perturbação da autoestima, uma série de sintomas que poderiam estar encaixados nas características do luto: “Desânimo profundamente penoso, a cessação de interesse pelo mundo externo, a perda da capacidade de amar, a inibição de toda e qualquer atividade e uma diminuição dos sentimentos de autoestima”.
O elenco de sintomas ligados unicamente à perda foi, se não desmentido, ultrapassado. Vide o caso de Luiz Caversan – entre tantos outros –, levado a lidar com a doença sem motivação factual. Por isso, perceber, assumir e entender a depressão requer paciência, consciência de que é possível viver tendo a doença e coragem de comunicar o problema.
Não é sempre que cansaço, tristeza, angústia e solidão bastam para o diagnóstico. A duração desses sintomas, no entanto, é um medidor à mão para saber-se doente ou próximo de alguém que padece da incapacidade de se adequar ao mundo, às cobranças e ao, no dizer de Lacan, “dever de ser ‘todo’ para o ideal” de felicidade, realização pessoal, profissional e afetiva.A perda “A principal característica da depressão é a sensação de perda de felicidade. O indivíduo deixa de sentir prazer em tudo que gostava e tem uma sensação de angústia profunda. O diagnóstico clínico exige que haja uma mudança qualitativa na vida da pessoa, um estado duradouro e persistente de pelo menos duas a quatro semanas”, afirma Jair Mari, 56, professor do Departamento de Psiquiatria da Universidade Federal de São Paulo e professor honorário do Instituto de Psiquiatria do Kings College, em Londres. Ao redor da angústia, estacionam os extremos: falta ou excesso de apetite, insônia ou hipersônia e ainda inquietação ou inibição motora e diminuição da velocidade de pensamento.
Para a terapeuta Leda Campos, 51, sentir-se “desconectado” é uma maneira de se colocar perante o mundo, mas que precisa de regulação, “a fim de não tornar a vida em sociedade inviável”. Leda diz ainda que “a tal desconexão pode se dar ou pela sensação de impotência ou pelo excesso de ansiedade, que finda em caos, paralisando da mesma forma a vida do indivíduo”.
Vê-se, portanto, que a imagem para baixo que o senso comum criou do deprimido é falha. A realidade varia caso a caso. No caso do paulistano Pedro, 38, professor do ensino médio, a euforia repentina e duradoura o levou ao diagnóstico da depressão há sete anos. “Não conseguia sequer dar aula, tamanha a ansiedade. Passei a ter palpitação, suar frio, fazer mil coisas ao mesmo tempo sem dar conta de nenhuma.”
As tarefas inconclusas levaram o professor ao acúmulo de pendências. Impossibilitado de colocar em dia o planejamento e a execução das aulas, viu-se afastado dos alunos, cobrado pelos superiores e desregrado na dieta que levara até então, agora muito acima do peso e insone. “Foi quando sofri um ‘blecaute’, um curto-circuito. Me disseram que era apenas uma crise nervosa por excesso de trabalho.” Instado a permanecer com o primeiro diagnóstico, Pedro não se satisfez. O gatilho da primeira crise estava à vista: o fim de um namoro de dois anos e meio. “A terapia me ajudou a enxergar o ponto de partida da minha depressão. Os remédios são fundamentais para controlar minha ansiedade”, diz, para em seguida relatar a sua maior dificuldade: comunicar a depressão aos mais próximos. “É difícil fazer entender que não é simples, que pode demorar a passar.”Queda livre Compartilhar a doença é um dos pontos mais delicados da relação entre o deprimido, seus familiares e amigos. Apesar do apoio que de antemão se presta ao doente, dois problemas são possíveis: a falta de paciência no trato com o paciente e a culpa que o acomete. No entanto, a rede de apoio engendrada a partir da consciência do problema é fundamental para sua recuperação.
Para Jair Mari, um dos caminhos que facilitam essa comunicação é deixar claro que ter depressão “não é indicativo de fraqueza ou de falha pessoal. É importante saber que os sintomas não vão desaparecer espontaneamente, e que em geral os antidepressivos demoram de três a cinco semanas para fazer efeito”.
Estar ciente de que o que se busca não é a cura, mas a melhor administração possível da doença, é outra arma a ser utilizada. Para Caversan: “Hoje as coisas melhoraram muito nesse sentido. Há muita informação circulando na internet, na TV, em publicações. O que torna o problema próximo de quem convive com o deprimido”.
Informar-se sobre o problema foi uma das saídas encontradas pelo próprio Caversan, que escreve regularmente sobre o assunto na coluna que mantém na versão online do jornal Folha de S.Paulo. Escolha parecida com a do também jornalista Andrew Solomon. Americano, colaborador do The New York Times, Solomon, que teve a primeira crise depressiva aos 31 anos, lançou há dez anos o livro O Demônio do Meio-dia – Uma Anatomia da Depressão, onde esmiúça as implicações sociais e culturais da depressão ao longo da história, figurando-a como uma “sensação prolongada de queda livre”.
O “estar ciente” dessa queda ajuda a amenizar outra face da doença: a culpa. Incapaz de viver, sair, se divertir, reagir à insistência da participação em atividade coletiva, o deprimido fica a um passo de se sentir culpado, quando na verdade é vítima.
Para a publicitária paulista Tatiana, 29, o mais trabalhoso da crise que enfrenta há cinco anos foi ter consciência de que não atender ao chamado dos amigos para festas e viagens, ou mesmo ao almoço em família no domingo, era algo que podia ser compensado assim que a depressão estivesse sob controle.
“É um período difícil, quando não fazer parte da turma pode parecer má vontade, ‘frescura’, preguiça. Quando me convenci que não era nada disso, foi mais fácil que os outros entendessem que assim que isso [a depressão] melhorar eu voltarei a vê-los, tão alegre quanto antes”, diz, emocionada.Entendimento A compreensão alcançada por Tatiana entre seus amigos não é uma regra. Por mais entendimento que haja do problema, é difícil “lidar com um ente querido prostrado, sem ânimo”, diz Caversan. “Os familiares costumam queixar-se muito de cansaço, de conversar e não obter resposta, brincar e não receber nem um sorriso, e ainda ter que conviver com o isolamento do paciente, a inércia para se alimentar”, diz Leda Campos.
Diante de tantas dificuldades, é improvável uma receita de como agir. Deve haver, mesmo assim, um fio condutor que une respeito, dedicação e solidariedade. E ainda, segundo Jair Mari, a noção de que “antidepressivos não são pílulas da felicidade. Na presença de ideias de suicídio, o sujeito deve ser informado de que a depressão poderá passar nas próximas semanas e que essa sensação de desesperança e impulso suicida também desaparecem no decorrer do tratamento”.
Para Manuela, o apoio dos pais, mesmo separados, foi realmente fundamental para que as crises rareassem. No caso de Laura, a mudança de postura do marido diante do diagnóstico da depressão pós-parto foi a tábua de salvação: “Em vez de cobrar, ele passou a compreender. Foi a melhor forma de me sentir apoiada, segura”, afirma a advogada, hoje de volta ao escritório.Cura? No geral, a depressão é um distúrbio químico – e não apenas isso. Há componentes genéticos. É comum encontrar famílias em que a depressão atinge vários membros e atravessa gerações. Por outro lado, o distúrbio químico vem a reboque do disparo de uma situação depressiva (luto, fim de um relacionamento etc.).
“O risco de recaída é de 60% com antecedente de dois episódios depressivos e de 90% na vigência de três episódios”, diz Jair Mari. Entre 50% e 85% das pessoas sofrendo de um episódio de depressão aguda irão ter um futuro episódio, usualmente dentro de dois a três anos. Na vigência de crises frequentes e de certa gravidade, assim como nos pacientes com baixa de humor prolongado, o tratamento poderá se prolongar por toda a vida.
Esses dados, em lugar de provocar desânimo, devem configurar êxito na busca pelo máximo de informação possível, de maneira a tornar palpável o controle das crises, tornando-as esparsas e cada vez mais leves. Há gente confiável, competente e disposta a entender cada vez mais a depressão.
“Nosso trabalho na terapia, com auxílio, se preciso, de antidepressivos, é ajudar as pessoas a retornarem à vida social, dando a elas a sensação permanente de luta, mas o principal: de batalhas vencidas dia após dia”, diz Leda. Manuela, Laura, Pedro, Tatiana e Luiz são unânimes em concordar.
LIVRO O Demônio do Meio-dia – Uma Anatomia da Depressão, Andrew Solomon, Objetiva